A ALMA IMORTAL
(Monologion, cap. LXIX.)
Não há dúvida de que a alma humana é uma criatura racional. Portanto, deve ela estar feita para amar a Suma Essência. É necessário, por conseguinte, que esteja feita para amar sem fim, ou para perder uma vez, livre e violentamente, este amor. Porém é impossível julgar que a suprema sabedoria a haja feito para que, alguma vez, despreze um bem tão grande, ou, querendo possuí-lo, perda-o por alguma violência. Resta, pois, somente haver sido feita para amar sem fim a Suma Essência.
Porém não pode fazer isto se não vive sempre. Portanto, foi feita de modo que viva sempre, se quiser fazer sempre aquilo para o que foi feita. Além disso, é demasiado impróprio do sumamente bom, sábio e onipotente criador fazer que não seja o que fez para que o amasse, enquanto o ame verdadeiramente; e tirar ou permitir que se tire o amante, para que necessariamente não ame, o que espontaneamente deu ao que não amava, para que o amasse sempre; sobretudo, quando não se deve duvidar de modo algum que ame toda natureza que o ame de verdade. Pelo qual é evidente que nunca é tirada a vida à alma humana, se almeja sempre amar a suprema vida.
(Monologion, cap. LXXII.)